Entrevista publicada no O Globo, caderno Prosa & Verso, pág. 8, em 30.06.2007

Prolífico
Como consegue publicar tanto? Tem uma rotina de muita disciplina? Acredita-se um obsessivo (tantos escritores assim se definem…)?
CÉSAR AIRA: Meu único sistema, e creio que é o melhor, consiste em escrever por prazer. Com nossos prazeres somos bastante estritos; são as obrigações que postergamos. Com o tempo, vi-me com uma rotina deliciosa, ao me dedicar a cada dia um pouco à invenção; aí tenho a liberdade que é tão escassa no resto da existência. Não sou obsessivo, porque posso passar semanas e meses sem escrever, e quando escrevo é apenas meia página ou uma página por dia. Sou muito lento, penso dez vezes cada palavra, e dou cem voltas a cada frase antes de escrevê-la. Na realidade, o segredo para ser prolífico não é escrever muito, mas escrever bem.
Procedimento
Segundo sua teoria, os grandes artistas do século XX foram os que inventaram “procedimentos”. A palavra é tão importante para o senhor que está no título do livro que lançou recentemente em Curitiba. É mais importante, pois, que a inspiração? Utiliza-os sempre?
AIRA: Em algum momento de minhas fantasias teóricas me entusiasmei com a idéia dos “procedimentos”, como os de Raymond Roussel, que geraram automaticamente os relatos. Era um modo de liberar-se da subjetividade burguesa, de toda a velha máquina psicológica. Mas nunca utilizei nenhum procedimento. E, olhando para trás, dou-me conta de que quase tudo o que escrevi é subjetivo, psicológico, autobiográfico e nasceu da mais velha e tradicional inspiração. A moral é que não se deve acreditar muito nos escritores quando teorizam.
Vanguarda
Na sua opinião, a única saída para a arte, hoje, é ser de vanguarda. Acredita, pois, ser um autor de vanguarda, um artista em busca da reinvenção da arte, como já definiu o artista de vanguarda?
AIRA: Queria considerar-me um escritor de vanguarda, se “vanguarda” se entende como a criação de novos paradigmas de gosto e qualidade. A “retaguarda” então seria ajustar-se ao gosto estabelecido, e eu sempre fui contra o gosto dos leitores, inclusive meus poucos e queridos leitores.
Gênero
Costuma aventurar-se por diferentes gêneros — novela, ensaio, teatro… Até um dicionário de literatura latino-americana escreveu. Que liberdade cada gênero lhe proporciona?
AIRA: Sempre fui narrador, e deveria ter sido só um narrador de histórias. Mas em certo momento obriguei-me a escrever ensaios. Fiz isso sobretudo para deixar um testemunho de minha experiência de leitor. Mas nunca consegui me acostumar. Um ensaísta deve dizer alguma espécie de verdade, e o narrador está mais bem comprometido com a mentira.
Segui escrevendo ensaios para desfrutar o contraste: quando termino um e volto ao romance, sinto melhor a imensa liberdade que tenho para mentir, para ser incoerente, absurdo.
Cânone
Parece-me que o senhor gosta muito de botar sempre o cânone em questão. É um “procedimento”?
AIRA: Não sou crítico, nem professor, nem historiador da literatura. Sou um leitor, e um leitor agradecido porque a leitura foi a ocupação mais constante da minha vida, e meu maior prazer. O cânone de um leitor são todos os autores que amou, e eu os amei a todos, ou a quase todos. O que não aceito destes “cânones” de que se fala hoje é seu aspecto prescritivo e autoritário. A melhor leitura é a que não é obrigatória, e cada leitor deveria decidir por si o que é bom ou mal.
Preferência
No lugar de autores já canônicos, como Cortázar ou Saer, prefere, por exemplo, Manuel Puig, nem sempre tão canônico. Por que não Cortázar, nem Saer? O que acha de Borges?
AIRA: Tampouco gosto de Jorge Amado ou de García Márquez ou X ou Y ou Z. E, sim, gosto de Puig e Borges e A e B e C. E daí? Não pretendo impor meus gostos a ninguém. Os leitores somos democráticos por natureza, e também por conveniência. Como a única coisa que queremos é que nos deixem seguir lendo em paz, respeitamos os gostos alheios para que respeitem os nossos.
Polêmica
Também não teme a polêmica: por que as desavenças? Além de uma questão de personalidade, há nisso algo que se refere a uma postura de honestidade diante da obra?Fale-nos um pouco da literatura argentina hoje… O que acha de Ricardo Piglia?
AIRA: Se falo mal de Piglia, posso estar certo de que Piglia vai falar mal de mim, de modo que a polêmica é demasiado previsível e sem interesse.
Flores
Como é morar em Flores, o típico bairro portenho que inspira, entre outras, uma das narrativas lançadas no Brasil no ano passado (“As noites de Flores”)?
AIRA: Fui viver em Flores em minha juventude, por acidente, e lá continuei por inércia. É um bairro sem atrativos especiais, que além disso me fez invisível pelo hábito. É ideal para a classe de romancista que sou. Obriga-me a usar a fundo a imaginação. Ao ser tão cinza, tão neutro, todo o drama e a emoção de meus romances ambientados em Flores tenho eu mesmo de inventá-los.
Brasil x Argentina
Apesar de ter diversas obras publicadas, poucas foram editadas no Brasil. Como explica o abismo cultural que existe entre os países vizinhos?
AIRA: Não consigo explicar. Talvez se deva a que além de ter línguas distintas temos histórias e sociedades muito distintas. E estamos perto demais para que haja um atrativo de exotismo, como com o Japão. O leitor médio argentino sabe muito mais da literatura japonesa que da brasileira. Mas o bom leitor nunca é um leitor “médio”, e os bons leitores argentinos não precisamos esperar as traduções.
Literatura brasileira
O que acha das letras brasileiras?
AIRA: Sem ânimo de fazer demagogia, acredito sinceramente que a literatura brasileira é a mais rica do continente. Sempre e em todos os gêneros, incluídos os não especificamente literários, como a sociologia ou a história. No século XIX, nenhum país latino-americano teve um romancista tão grande quanto Machado de Assis. E, no XX, seria necessário reunir o máximo de vários países (Borges, Lezama Lima, César Vallejo) para haver um equivalente de Guimarães Rosa, Clarice, Mario de Andrade, Dalton Trevisan, João Cabral e tantos mais. E hoje não há em nenhuma parte um escritor com a grandeza de João Gilberto Noll.
Telefone
É verdade que detesta falar ao telefone? Por quê?
AIRA: Cresci no campo e falei ao telefone pela primeira vez aos 20 anos. Nunca me acostumei. Não consigo manter uma conversa por telefone. E notei que transmitem muito mais notícias ruins que boas. (Isso não impede que eu considere “O gorila”, de Sérgio Sant’Anna, uma obra-mestra do conto).
Temas
Até hoje, na sua literatura, como surgiram os temas sobre os quais escreveu? O que lhe seduz num tema?
AIRA: Não sei se saberia o que falar de “temas”. Meus romances nascem de uma ocorrência ou inspiração fugaz, e a partir daí eu improviso à medida que vou escrevendo, mudando a direção todo o tempo. Não sei qual será o “tema” que vai prevalecer no fim.
Nobel
Gosta de Coetzee, o Nobel sul-africano que virá à Flip também? Ou prefere Nadine Gordimer, outra Nobel?
AIRA: Não li nenhum dos dois. O último Prêmio Nobel que li foi Beckett, e não o li porque ganhou o Prêmio Nobel.
Jornal: O GLOBO
Autor: Raquel Bertol
Editoria: Prosa & Verso