Muito longe de casa

By ane aguirre

ishmaelbeah-capa.jpgNos anos 90, Ishmael era um garoto de Serra Leoa que gostava de Shakespeare e de hip-hop e que teve aos doze anos a infância interrompida, quando a guerra civil chegou à sua aldeia. Conseguiu escapar dos rebeldes que assassinaram sua família: a Frente Revolucionária Unida, FRU, que iniciou o conflito é um grupo conhecido por atrocidades como amputar as mãos de suas vítimas. Escapou dos rebeldes e foi cair nas mãos das tropas governamentais que o recrutaram para o combate, recebendo alimentação (feita de drogas pesadas) e treinamento que o transformaria num assassino obstinado e em um escravo das circunstâncias. Passou a não reagir mais como uma pessoa normal, era como se estivesse anestesiado. Segundo ele, recrutar crianças tornou-se uma prática natural tanto por rebeldes como pelas tropas do governo e a única diferença era que os soldados leoneses não mutilavam suas vítimas. Entre os fatos narrados há um momento em que, atingido no pé em um dos combates, foi obrigado pelo comandante a apontar entre os inimigos capturados quem era o responsável por seu ferimento. Respondeu não ter certeza se o atirador era um dos prisioneiros:

“Mas qualquer um deles poderia ter atirado. Então, todos eles foram alinhados, seis deles, com as mãos amarradas. Eu atirei nos seus pés e assisti ao sofrimento deles um dia inteiro antes de finalmente atirar na cabeça para que eles parassem de chorar”.

Resgatado pela Unicef após três anos atuando como soldado infantil, voltou a estudar, passou a morar em Nova York e tornou-se um porta-voz da campanha contra a barbárie: 300 mil crianças são forçadas a combater em 50 conflitos no mundo, em sua maioria na África.

O livro, lançado pela Ediouro no Brasil, também foi uma prova difícil para Ishmael. No início ele sofreu interrogações sobre a veracidade da história. Como compreender que um garoto possua tal memória fotográfica sem compreender que sua cultura estava apoiada por séculos numa tradição de história oral? Os fatos narrados são de fato dolorosos e cruéis, tanto quanto a violência narrada por Paulo Lins em Cidade de Deus. Violência que talvez deva ser encarada pela esperança no relato de resgate que Beah faz em seu livro.

Trezentas mil crianças-soldado, lavagem cerebral, entorpecentes, abusos dos senhores da guerra, morte. Muitas hoje ainda sofrem com as conseqüências. Fã de hip hop e de boa literatura, Ishmael Beah, após passar a infância e a adolescência na roda-viva da guerra, foi reabilitado pela Unicef e teve a chance de contar o que qualquer ficção jamais conseguiria recriar. Uma narrativa convincente, de linguagem bem acabada da visão do inferno, por quem esteve lá e conseguiu sair com vida.


Título: Muito longe de casa
Autor: Ishmael Beah
Tradução: Cecília Giannetti
Páginas: 224,
Altura : 23 cm, Largura : 15,5 cm
ISBN 9788500021213
Editora: Ediouro
R$ 34,90
Lançamento: Junho/06

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