OFF-FLIP fez bonito!

By sergiofonseca

A OFF-FLIP é um circuito paralelo de idéias que nasceu da necessidade de se criar um espaço de integração e manifestação da sociedade local e de expansão de contatos culturais e artísticos durante a FLIP. Havia, à época das primeiras edições da FLIP, uma idéia que esta era uma festa elitista e não privilegiava os jovens autores, os autores locais e a população de Paraty. Esta idéia, se já não é de todo verdadeira, pelo menos no que diz respeito à elitização, continua valendo. Basta ver o porte do evento e imaginar o volume financeiro envolvido para empregar pessoas, pagar passagens e estadia de autores e familiares, montar tendas enormes, aluguel de equipamentos, livraria, cafeteria etc. Quem conseguiu os 21 ingressos para a Tenda dos Autores desembolsou R$ 483,00. Na Tenda Matriz, R$ 105,00. No conjunto, não são exatamente preços populares.

Aí surge a OFF-FLIP com seus quatro mosqueteiros – Lia Capovilla, Ovídio Poli Junior, Maria Luiza de Faria e Marilia van Boekel Cheola – tirando leite de pedra. Com uma verba cada vez mais curta vinda do único patrocinador, a Prefeitura de Paraty, esta mesma Prefeitura que não consegue levar luz aos bairros da periferia, a OFF trabalha com garra e amor.  Na sede com menos de 8m2, uma mesinha, duas ou três cadeiras, um telefone, um arquivo, uma pequena estante com livros dos autores, algumas prateleiras e material de divulgação.  E nenhum computador. A verba dessa edição foi tão curta que nem um microcomputador conseguiram colocar. Mas havia a educação, o sorriso, a boa vontade, a prestreza, a energia de Ovídio, Marilia, Maria Luiza e Lia. E com esses ingredientes e quase nenhum dinheiro, fizeram bonito, espalhando quatorze eventos pela cidade, treze deles com entrada franca, com destaque para a Tribuna OFF, um espaço coletivo para leitura de contos e poemas de escritores convidados, performances individuais e coletivas; o Sarau Literário dedicado ao ator, dramaturgo, artista plástico, professor e radialista Themilton Tavares, personagem notável e querido de Paraty e as mesas de debate com os escritores da editora Língua Geral, que reuniu Mauro Sta Cecília e Miguel Gullander falando sobre literatura e música (mediador: Ney Lopes), Ana Paula Maia e Christiane Tassis conversando sobre A Escrita na Era da Imagem (mediador: Belisário Franca) e finalmente, diante de um auditório lotado, Os Caminhos da Nova Ficção Africana em Língua Portuguesa – Cosmopolitanismo x Tradição foi o tema da terceira e última mesa, que gerou um excelente debate entre José Agualusa, Mia Couto e o mediador escritor Nelson Saúte.  Em função do número pequeno de lugares, à imprensa, foram reservadas senhas para que ninguém ficasse sentado no chão. Não houve qualquer restrição a cinegrafistas e fotógrafos que tiveram total liberdade dentro do ambiente. Em momento algum vi ou ouvi reclamações do público. E nem movimentação inadequada dos que ali estavam documentando o evento.

OFF-FLIP - Mesas da Editora Lîgua Geral

Uma pergunta que me inquieta: Por que a FLIP não destina uma pequena parte da verba que arrecada para a OFF? Quem vê de fora fica com a impressão que a OFF é tratada pela organização da FLIP como uma manifestação contrária. Como um movimento dos sem FLIP. Mas não é. As duas se complementam. A OFF chega aonde a FLIP não consegue ir. Leva a literatura, a poesia aos botequins, aos cafés e às ruas. Não conheço ninguém que vá a Parati para ver apenas a FLIP das tendas. Vão para ver de tudo um pouco. Tem gente que vai para ver o movimento, pela ótima pinga, para ver a cara dos gaiatos do Bagatelas. Acho que já está mais do que na hora da grande Casa Azul pensar nisso. Ganharemos todos nós.

Para o pessoal da OFF, parabéns, sucesso e muito obrigado!

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