Fabrício Corsaletti
Ele nasceu em 1978 em Santo Inácio, interior de São Paulo. Mudu-se para São Paulo em 1997, formou-se em Letras pela USP e escreveu letras para a banda de Rock Barra Mundo.
Fabrício Corsaletti é editor da revista de poesia “Ácaro”. Publicou Movediço (2001), O Sobrevivente (2003), Zôo (livro infantil, pela Hedra) e Estudos para o seu corpo, reunindo os dois primeiros livros e inéditos, pela Companhia das Letras.
Submarino – Sinopse:
Estudos para o Seu Corpo reúne quatro livros de Fabrício Corsaletti – poeta considerado por críticos como Alcides Villaça e Manuel da Costa Pinto um dos maiores destaques no panorama da nova poesia brasileira. Publicados em pequenas tiragens, os dois primeiros – Movediço (2001) e O sobrevivente (2003) – são marcados pela infância na província, pela descoberta da vida na metrópole e pela tentativa de elaboração da experiência amorosa. Inéditos, História das demolições e Estudos para o seu corpo – este último composto de um único poema – trazem novamente à tona esse conjunto de referências, mas em chave mais contida e voltada à investigação da figura feminina. A voz de Fabrício ecoa sua experiência de vida. Os dilemas da juventude são expostos com vigor, sem ceder a algum suposto registro elevado. Junto com isso, um domínio formal raro, caracterizado pela economia de meios e pelo manejo atilado – meticuloso e sem alarde – da tradição modernista em que se insere. Sem dúvida um poeta importante com muito a dizer.
Fotografia: Bel Pedrosa
Mais sobre sua participação na Mesa 1.
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VERSOS DE INCÔMODA RESSACA
Montaigne avisava que na morte chegamos novatos. O poeta italiano Cesare Pavese contestava a afirmação: todos antes de nascer estávamos mortos. O novo livro de Fabrício Corsaletti, Estudos para o Seu Corpo, aposta acertada na área de poesia da Companhia das Letras, fecha com a segunda hipótese. Traz o desencanto de quem já morreu várias vezes. A antologia do escritor paulista reúne seus livros anteriores Movediço (2001) e O Sobrevivente (2003), mais dois novos Histórias das Demolições e Estudos para Seu Corpo. O que mais identifica o conjunto é uma escrita feita para a despedida. O poema é o momento de puxar o gatilho. Ou melhor, o momento de não puxá-lo.
Apesar da juventude do autor, entrando na casa dos 30, seus versos pulsam uma atmosfera de incômoda ressaca. Há o charme do inconformismo e rebeldia, mas, acima dele, persiste uma autenticidade de crença, de preparação para a morte. Como se cada livro fosse uma tentativa, não uma previsão, de encontrar justificativas para permanecer entre os seus. “Morrer não posso/ não assim/ maravilhado.”
Não são poucos os momentos em que ele avisa: “A sensação de que tudo já foi/ ou poderia ter sido/ de outra maneira” (Meninos Soltando Pipa); “se a morte vier, que venha de uma vez” (Tenso), “julguei minha vida encerrada”; “eu embarquei não há dúvida/ para a última viagem” (Canção do Barco de Madeira e Couro). Antes de sacramentar o desfecho, ele muda de repente de idéia e sua poesia vira uma desistência da própria desistência.
Dois pólos se alternam na antologia: a crueldade da infância e a suavidade do amor pelas mulheres. Impinge, de modo crescente, uma bipolaridade permanente do olhar entre a destruição (as ruínas) e a construção da sensualidade. A ambivalência encontra-se também na dicção, com a facilidade que parte do sussurro e alcança o grito, que vai da poesia mais realista fundamentada em arrolamentos aos rompantes surrealistas, que trafega da concisão irônica aos versos longos dialogados.
OPOSTOS
A infância tem uma maldade inconsciente. Uma maldade curiosa. É uma violência sem sentido, de testar a força ou provar o conhecimento, que poderia trazer o arrependimento com a reprimenda dos adultos, que nunca vem. Os familiares apenas oferecem a agressividade maior da omissão.
Em Parceria, o menino de 6 anos joga o gatinho no muro, o vô chega e diz: “Esse não tem mais jeito”, e faz pior ao enterrar o bicho ainda vivo. Já no O Sobrevivente, crianças enfiam lascas de madeira numa baleia agonizante na praia, para “conhecer a textura dos músculos”. Gratuidade infantil que se agrava com a indiferença adulta.
No outro lado, o mais intenso de Fabrício, é sua inclinação erótica. A originalidade do escritor nasce de sua imensa capacidade de reconceituar as relações afetivas e desembaralhar confusões: o cansaço não é paz, a sombra não é a alma que perdi. Sua estratégia é descrever o cotidiano pela negação, tudo passa a ser quando não se é.
É um Fabrício mais livre, mais plural, mais meditativo, que aprende a se deslocar em diferentes pontos de vista, ora da mulher, ao visitar a perspectiva do sol do escritório dela, ora dele mesmo, apresentando a perspectiva do sol de seu apartamento.
Seu “cântico dos cânticos pop-art” mistura loucura – “Amo aquela mulher/ desde o momento/ em que a vi mijando/ descontrolada em pé” – com a serenidade – “seu passo aperfeiçoa o amor”.
Se nos primeiros livros resistia uma imposição ególatra de escandalizar pela amputação e sacrifício (”a única/maneira de/ mostrar o osso/ desta/ perna sangrando// é arrancando/ a perna”) ou pela exaltação das ruínas, do apodrecimento e das sobras, nas recentes obras de 2007 cresce uma mudança de temperamento em direção a uma autocrítica confiante, um otimismo tímido e um lirismo bem-humorado, flertando com a canção e os epigramas à maneira de Francisco Alvim (”sua bunda jamais terá/ ideologia”).
Monta um painel teopoético sobre anatomia feminina. Ainda que a agressividade apareça, o escritor deixa a orfandade do sofrimento e parece agora se divertir. Não mais a raiva pela falta de lugar, e sim a ternura da adaptação madura, último desdobramento de sua revolta.
São observações acuradas sobre diferentes partes do corpo:
“Orelhas sejamos práticos e sinceros
orelha nenhuma
tem que ser bonita
têm que ser simpáticas
ou inteligentes
Braços
seus braços são a única coisa do mundo
sem morte.”
Sintomático que o livro termine com um pedido de perdão. “Sei que existe um mundo/real atrás dos mundos/ em que nos defendemos.” Fabrício Corsalleti se redime em nome de todos os que não colocaram limites para a dor e para a alegria em sua infância e se encontra dono de si.
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Poemas:
História
Na cidade em que nasci
havia um bicho morto em cada sala
mas nunca se falou a respeito
os meninos cavávamos buracos nos quintais
as meninas penteavam bonecas
como em qualquer lugar do mundo
nas salas o bicho morto apodrecia
as tripas cobertas de moscas
(os anos cobertos de culpas)
e ninguém dizia nada
mais tarde bebíamos cerveja
as brincadeiras eram junto com as meninas
a noite aliviava o dia
das janelas o sangue podre
(ninguém tocava no assunto)
escorria lento e seco
e a cidade fedia era já insuportável
parti à noite despedidas de praxe
embora sem dúvidas chorasse
Tenso
rolo de arame farpado
tora de peroba
de araroeira
todas as formigas
do couro da minha cabeça
um queixo
minha mão
meu pau meu punho
meus tensos dentes
Amo aquela mulher
desde o momento
em que a vi mijando
descontrolada em pé
aquela mulher
era puro amor
ELA E SUA CIDADE
Vai buscando as nuvens compactas,
como um samba perfeito,
nesta tarde de sol em que a poesia
é menos que a poesia.
Sabe onde estão os vidros da noite.
Tem dedos infinitos,
narinas transparentes,
imperfeitas sobrancelhas intocadas.
Nos seus quadris começa o mundo.
Seu passo aperfeiçoa o amor.
Há redes grávidas, amarelas
em toda a costa do mapa.
De cada bicho rouba uma surpresa.
Pantera branca, garota de colégio
(jamais um tigre de Bengala
desbotado); brancura acinzentada
do cinema em preto e branco.
E as palavras vivas, na boca viva,
são um pensamento livre.
(Ela deveria ter sido poupada para o mundo justo.)
Antes de se cansar, desaparece.
Depois amanhece.
Viver para ela deve ser bom.






